Quantos milhões farão uma mega virada?

Nestes dias, amanheci pronto pra me apaixonar. Resolvido a ser solar. Capaz de desejar um voo acompanhado pra qualquer lugar em que a companhia (aérea e a terrestre) quisesse me levar. Vontade de fazer uma declaração de amor e profecia. “Tenho muito amor pra dar”.

Ontem, por exemplo, foi um dia de “eu mereço”. Daqueles em que a gente desperta, levanta, depois acorda de novo, parecendo um estalar de consciência. Como pode? Eu era a definição de qualquer coisa próximo/além de felicidade. Não precisava receber notícias para me alegrar – talvez não receber notícias seja uma forma de se alegrar. Me empoderei.

Estar bem assusta…

Admirado com esse estado de espírito, tive a súbita preocupação de se o fenômeno sem- ter-nem-pra-quê não seria cíclico sempre que entra o salário, especialmente se é mês de 13º. Tinha entrado.

Quando a gente comemora que entra dinheiro e, mais do que isso, tem alguma sensação de liberdade, é sinal de que algo nos prende. Trabalhamos muito para um resultado final que não é o descanso. É o salário para pagar as contas que fizemos para ter energia para trabalhar e pagar o “eu mereço” – se for no cartão de crédito, boletos dos meses à frente, acreditando que ainda existiremos.

Comprar a prestação é subverter a surpresa da morte. Tenho um medo confesso da morte, mas subverto. Devo, logo existirei. Já o seguro de vida (ou juros, simplesmente) é a subversão da subversão – para manter a roda girando sem você. Não à toa, os negócios mais lucrativos são financiados pela morte: seguro, farmácia e funerária.

Meditei sobre essa situação, enquanto marcava cartões da Mega-Sena da Virada. “Já pensou se ganho?”. Já. Desenvolvi uma capacidade mais ligeira de elaborar sonhos a partir da Mega do que sem ela: viajar, comprar uma casa para minha mãe, outra pra mim, o carro que passa na televisão sem o preço (barato não deve ser) e chegar para familiares até o terceiro grau e dizer “toma, é pra você”. Dar aquele abraço com tapinha nas costas e dizer “você merece”.

Um cartão premiado parece, guardadas as devidas proporções de século, uma carta de alforria na mão do escravo. Até perceber que liberdade é utopia.Tenho a impressão de que quem é muito (muito) rico acredita que tudo é uma equação simples do resultado do próprio esforço. Até ganhador de loteria – afinal, foi lá e marcou, fez sua parte. E não basta qualquer mega-sena, tem que ser a da virada.

Problema maior do que não marcar um cartão é ficar de fora do bolão. Mais trágico que não ficar rico é ver somente o amigo ficar. “Só os felizardos não trabalharão no dia 2 de janeiro”.

O grupo do WhatsApp, criado por conta do bolão, reúne colegas com os quais travo pouco diálogo. Mas estamos todos ali, na fé da sorte, desejando feliz Ano-Novo uns aos outros. O dinheiro, ou o desejo dele, finge que nos une. E acreditamos, verdadeiramente, nessa ponte para o amor, para Paris. Em 2 de janeiro, se estivermos todos trabalhando, tudo volta ao normal.Se a sensação de ficar rico já nos alivia, então não é questão de dinheiro, mas sentimento. O duro é prolongar esse estado pacífico. A chance de ganhar na Mega é uma em 50 milhões. A de realizar sonhos, também?

Eu não sabia que sonhava ter saúde até ficar doente. Descobri, aos 35, hipertensão arterial e muito estresse. Mudei minha alimentação, corro diariamente. Pauso diariamente. Medito. A minha filha está crescendo e vê-la perder o medo de andar de bicicleta sem rodinhas não teve preço. Ouvi-la dizer “pai, se custar muito dinheiro, não precisa”, também não tem. Não quero “dar a ela o que não tive”, pois as ausências também estão na equação do que sou.

A casa de minha mãe tem paredes frágeis, mas o alicerce familiar é tão sólido que agregamos novas pessoas todos os anos. Fazemos, em laços de família, vários puxadinhos.

Escrevi um bilhete pedindo perdão a um amigo. A outro, perdoei. Dou e ganho abraços todos os dias, pelo simples desejo de abraçar. Tenho por ofício contar a história dos outros. Me inscrevo nelas e em seus sonhos: há dois anos, encontrei morando nas ruas de São Paulo um cearense que havia 22 não sabia da família, nem ela dele. Anunciar a sua existência foi o mesmo que ressuscitar, para a mãe, um filho que não enterrou. “Ganhei na loteria”.

Não sei quando me virei e percebi, sem-ter-nem-pra-quê, graças da vida. Ainda acordo com a vontade de declarar amores e profecias. Mesmo já findo o 13º.

Do DN